segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Descartes: o itinerário filosófico


1. Dúvida
"[...] admiti anteriormente como absolutamente certas e manifestas muitas coisas que, entretanto, depreendi depois serem duvidosas. Que coisas foram estas? A Terra, o Céu, os Astros, e todas as coisas que recebi pelos sentidos. Mas o que compreendia eu delas, com clareza? As próprias ideias ou pensamentos de tais coisas, que se apresentavam ao meu espírito. E ainda agora não contesto que estas ideias estão de facto em mim. [...] Mas que mais? Quando considerava nos temas da Aritmética e da Geometria coisas absolutamente simples e fáceis, como dois mais três são cinco, e equivalentes, não as intuí pelo menos bastante claramente para afirmar que são verdadeiras? Posteriormente, só fiz o juízo de que se devia duvidar delas porque me vinha ao espírito que possivelmente um certo Deus podia ter-me dado uma tal natureza que eu também me enganasse sobre aquelas coisas que parecem mais manifestas. Mas sempre que esta opinião sobre o poder supremo de Deus, concebida anteriormente, me ocorre, não posso deixar de confessar que a ele lhe é fácil, se o quiser, conseguir que eu erre também naquilo que intuo do modo mais evidente pelos olhos do espírito."

2. Cogito
"[...] persuadi-me que não havia absolutamente nada no mundo, nenhum céu, nenhuma terra, nenhuns espíritos, nenhuns corpos. Não me persuadi também de que eu próprio não existia? Pelo contrário, eu existia com certeza se me persuadi de alguma coisa. Mas há um enganador, não sei qual, sumamente poderoso, sumamente astuto, que me engana sempre com a sua indústria. No entanto, não há dúvida de que também existo, se me engana; que me engane quanto possa, não conseguirá nunca que eu seja nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. De maneira que, depois de ter pesado e repesado muito bem tudo isto, deve por último concluir-se que esta proposição Eu sou, eu existo, sempre que proferida por mim ou concebida pelo meu espírito, é necessariamente verdadeira."

3. Deus
a) " ... é manifesto, pela luz natural, que deve haver pelo menos tanta realidade objectiva na causa ... como no efeito da mesma causa. Porque, pergunto, de onde pode o efeito tirar a sua realidade, a não ser da causa? E de que modo poderia ela conferir-lha se não a possuísse também? Daqui se segue que nem algo pode provir do nada, nem também aquilo que é mais perfeito, isto é, que contém em si mais realidade, daquilo que contém menos perfeição."

b) "Quanto ao que é claro e distinto nas ideias das coisas corpóreas, parece-me que alguma coisa poderia ser tirada da ideia de mim mesmo ... De maneira que só resta a ideia de Deus, na qual se deve considerar se há alguma coisa que não pudesse provir de mim próprio. Pelo nome de Deus compreendo uma certa substância infinita, independente, sumamente inteligente, omnipotente, e pela qual foram criados quer eu mesmo, quer tudo o resto que existe, se é que alguma coisa existe. O que, sem dúvida, é tão notável que quanto mais cuidadosamente atento nessa ideia tanto menos parece que eu possa tirar só de mim a sua origem. E, por conseguinte, do atrás dito deve concluir-se que Deus existe necessariamente. Porque, embora pela razão de eu ser uma substância esteja em mim uma certa ideia de substância, no entanto, como sou finito, não seria a ideia de uma substância infinita, a não ser que procedesse de outra substância que fosse realmente infinita."

c) "Agora parece que enxergo um certo caminho pelo qual se é conduzido desta contemplação do Deus verdadeiro ... ao conhecimento de todas as outras coisas. Em primeiro lugar, reconheço que é impossível que ele me engane alguma vez, porque em toda a falácia ou logro se descobre alguma imperfeição. E embora poder enganar pareça ser uma certa prova de subtileza de espírito ou de poder; querer enganar atesta, sem dúvida nenhuma, malícia ou fraqueza de espírito: o que, por isso, não pertence a Deus. A seguir, verifico que há em mim uma certa faculdade de julgar que, certamente, recebi de Deus, como todas as restantes coisas que há em mim; e, porque ele não me quer enganar, com certeza não ma deu tal que, quando rectamente a uso, possa errar alguma vez."

4. Ideias inatas
"E agora, depois de ter notado o que se deve evitar e o que se deve fazer para atingir a verdade, parece-me que nada é mais urgente do que emergir das dúvidas em que caí nos dias precedentes e ver se posso conhecer algo de certo sobre as coisas materiais.E, na verdade, antes de inquirir se tais coisas existem for a de mim, devo considerar as ideias delas, na medida em que estão no meu pensamento, e ver quais são as distintas e quais são as confusas. Assim, imagino distintamente a quantidade, que os filósofos chamam vulgarmente quantidade contínua, ou seja, a extensão desta quantidade ou, melhor, de uma coisa maior ou menor, segundo o comprimento e largura e a profundidade. Nela posso contar várias partes e atribuir-lhes toda a espécie de grandezas, figuras, situações e movimentos locais, e a estes movimentos quaisquer durações. E não conheço apenas perfeitamente e com evidência estas coisas, assim genericamente consideradas. Além disso, se presto atenção, concebo também inúmeras particularidades sobre as figuras, o número, o movimento, e coisas semelhantes, cuja verdade é tão clara e tão consentânea com a minha natureza que, logo que as começo a descobrir, parece-me que não aprendo qualquer coisa de novo, mas que, ao contrário, me recordo do que já anteriormente sabia: ou seja, que presto atenção, pela primeira vez, a coisas que há muito tempo já estavam dentro de mim, sem que eu antes tivesse dirigido para elas a minha atenção."

Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira

Este texto de Descartes permite-nos entender o circuito fundamental do pensamento do filósofo, já que assenta na explicitação dos seus conceitos fundamentais: a dúvida, o cogito, Deus e as ideias inatas.

Os pressupostos do racionalismo filosófico


A posição epistemológica que vê no pensamento, na razão, a fonte principal do conhecimento humano, chama-se racionalismo (de ratio = razão). Segundo ele, um conhecimento só merece na realidade este nome quando é logicamente necessário e universalmente válido. Quando a nossa razão julga que uma coisa tem que ser assim e que não pode ser de outro modo, que tem de ser assim, portanto, sempre e em todas as partes, então, e só então, nos encontramos ante um verdadeiro conhecimento, na opinião do racionalismo. Um conhecimento desse tipo apresenta-se-nos, por exemplo, quando formulamos o juízo "o todo é maior do que a parte", ou o juízo "todos os corpos são extensos". Em ambos os casos vemos com evidência que tem de ser assim e que a razão se contradizia a si mesma se quisesse sustentar o contrário. E porque tem de ser assim, é também sempre e em todas as partes assim. Estes juízos possuem, pois, uma necessidade lógica e uma validade universal rigorosa.

Pelo contrário, sucede uma coisa muito diferente com o juízo "todos os corpos são pesados", ou no juízo "a água ferve a 100 graus". Neste caso só podemos ajuizar que é assim, mas não que tem de ser assim. É perfeitamente concebível que a água ferva a uma temperatura inferior ou superior; e também não significa uma contradição interna representar-se um corpo que não possua peso, pois a nota do peso não está contida no conceito do corpo. Estes juízos não têm, pois, necessidade lógica. E mesmo assim falta-lhes a rigorosa validade universal. Podemos julgar unicamente que a água ferve a 100 graus e que os corpos são pesados, até onde podemos comprová-lo. Estes juízos só são válidos, pois, dentro de limites determinados. A razão disto é que, nestes juízos, encontramo-nos limitados à experiência. Isto não acontece nos juízos primeiramente citados. Formulamos o juízo "todos os corpos são extensos" representando o conceito de corpo e descobrindo nele a nota da extensão. Este juízo não se funda, pois, em qualquer experiência mas sim no pensamento. Daqui resulta, portanto, que os juízos fundados no pensamento, os juízos que procedem da razão, possuem necessidade lógica e validade universal; os outros, pelo contrário, não a possuem. Todo o verdadeiro conhecimento se funda deste modo – assim conclui o racionalismo –, no pensamento. Este é, por conseguinte, a verdadeira fonte e base do conhecimento humano.

Uma forma determinada do conhecimento serviu evidentemente de modelo à interpretação racionalista do conhecimento. Não é difícil dizer qual é: é o conhecimento matemático. Este é, com efeito, um conhecimento predominantemente conceptual e dedutivo. Na geometria, por exemplo, todos os conhecimentos derivam de alguns conceitos e axiomas supremos. O pensamento impera com absoluta independência de toda a experiência, seguindo somente as suas próprias leis. Todos os juízos que formula, distinguem-se, além disso, pelas características da necessidade lógica e da validade universal. Pois bem; quando se interpreta e concebe todo o conhecimento humano em relação a esta forma de conhecimento, chega-se ao racionalismo.

J. Hessen, Teoria do Conhecimento, Almedina


1. O texto de J. Hessen torna evidente as principais características do racionalismo. Seleccione do mesmo, cinco adjectivos que tornem evidente a especificidade desta corrente filosófica.

2. Produza um pequeno texto onde evidencie a cumplicidade entre o racionalismo e o pensamento matemático e geométrico.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Discurso argumentativo - Ficha de trabalho de revisão:

"(...) é o regime democrático da livre expressão de opiniões, da discussão de todas as teses em presença, que é o concomitante indispensável do uso da razão prática
simplesmente razoável."

Chaïm Perelman , Le Champ de l'Argumentation,
Presses Universitaires de Bruxelles, 1970, pp. 181-182.


O nascimento da Pólis

"A partir de 1150 a.C., aproximadamente, os dórios, vindos do norte, começaram a invadir a Grécia, instalando-se em Epiro, Etólia, Acarnãnia, Peloponeso, Creta e Anatólia. Outros povos como os boècios, os tessálios e os trácios também penetram nas terras gregas. A civilização micénica é destruída e a cultura, de certo modo, retrai-se: o comércio cede à economia agrícola e a escrita desaparece, para só ser reencontrada no final do século IX a. C. Vive-se no isolamento das aldeias, com formas de vida tribais. Por isso, esse período, que se estende até ao início do século VIII ª C., é cohecido como "idade da trevas". No plano político, ocorrem transformações decisivas: a realeza desaparece e o poder político passa a ser controlado por uma aristocracia de ricos proprietários de terras. Mas com isso, desaparece também a unidade política que o rei encarnava em sua autoridade. Sem esta unidade superior, a sociedade passa a ser vista como lugar de desordem, de conflitos entre diversos grupos sociais: as famílias aristocráticas entre si e também a aristocracia e as camadas mais pobres da população. Como recuperar a ordem e a harmonia perdidas? Diante da inexistência de um rei, o que poderia preservar a unidade e a coesão da comunidade? A organização da polis vai-se impondo aos poucos como solução para estas questões.

Outros factores encontram-se também na origem da polis: o renascimento do comércio, a partir do século VII ª C., que se desenvolve cada vez mais com a invenção da moeda cunhada, rompe o isolamento das aldeias. Estas tendem a unir-se, dissolvendo as antigas linhagens tribais. A sociedade torna-se mais complexa . Ela não é um aglomerado de agricultores e artesãos - o demos ( o povo)- reunidos em torno do palácio central.

O próprio centro da cidade sofre um deslocamento radical: ele passa a ser o ágora, a praça pública, onde acontecem as transacções comerciais e as discussões sobre a vida da cidade, a começar pela sua defesa. O direito de acesso ao ágora também se torna cada mais amplo, estendendo-se, com a instituição da democracia, a todos os cidadãos, isto é, habitantes do sexo masculino, adultos e que não sejam estrangeiros ou escravos:"

AA.VV., História do Pensamento, Volume I,
Editora Nova Cultural, 1987, pp. 17-18.

1. Discuta a cumplicidade que deve existir entre o aparecimento da retórica e a emergência do regime democrático na cidade ateniense.

Os sofistas e a democracia

Mas são as instituições democráticas que permitirão o progresso da sofistica tornando-a, de alguma maneira, indispensável: a capacidade do poder exige, de agora em diante, o perfeito domínio da linguagem e da argumentação: não se trata apenas de ordenar, há também que persuadir e explicar: É por isso que os sofistas, como nota Jeager, que saíram todos da classe média, foram, de uma maneira geral, mais favoráveis, parece, ao regime democrático. É claro que os seus alunos mais brilhantes foram aristocratas, e os jovens nobres que frequentaram os sofistas foram os que aceitaram submeter-se às regras das instituições democráticas: os outros desinteressavam-se da vida política.

Por outro lado, os sofistas foram profissionais do saber, da gramática à Matemática, mas estes filómates não procuravam a transmissão de um saber teórico: visavam a formação política de cidadãos escolhidos."

G. Romeyer-Dherbey , Os Sofistas, Edições 70, p. 10


1. Discuta a cumplicidade entre o movimento da sofística grega, o nascimento da democracia e a importância das técnicas argumentativas.

Da percepção à razão

Enquadramento:

  • Da percepção à razão

«A percepção dos sentidos é, portanto, fortemente determinada pela disposição total da mente e do corpo. Mas, por sua vez, esta disposição relaciona-se, de maneira significativa, com a cultura geral e estrutura social. Do mesmo modo, a percepção através da mente é também governada por todos estes factores. Por exemplo, um grupo de pessoas passear numa floresta vê e responde de maneira diversa ao ambiente. O lenhador vê a floresta como uma fonte de madeira, o artista como algo digno de ser pintado, o caçador, como esconderijo para a caça, e o pedestrianista, como espaço natural a explorar. Em cada caso, o bosque e as suas árvores individuais são percebidos de modo muito diferente, na dependência da formação e expectativas dos passeantes.»

D. Bohm e F. D. Peat, Ciência, Ordem e Criatividade,
Lisboa, Gradiva, 1989, p. 91

  1. Esclarece o sentido desta aparente contradição: Pai e filho foram ao cinema. Viram o mesmo filme, mas não viram o mesmo filme.
  2. Elabora um pequeno texto de carácter argumentativo, em que fundamentes as razões da tua concordância ou discordância com a afirmação seguinte:
    "Para pensar o mundo, temos primeiro de percepcionar o mundo."

M. Conford.

In J. Vieira Lourenço, Razão e Sentido – Introdução à Filosofia 11º ano ,
Porto, Porto Editora, 1998, p. 155.

Além das sugestões apresentadas pelo autor, seria possível como tarefa:

  • Identificar os factores que condicionam a percepção da realidade.
  • Justificar o facto de a percepção não ser nunca uma simples cópia do real.

Argumentação e Filosofia:


sábado, 22 de janeiro de 2011